terça-feira, 14 de abril de 2009
De perder a cabeça
O trabalho do cineastra Sam Peckinpah é para mim um dos mais fascinantes que tive oportunidade de conhecer. Filmes como: Major Dundee (1965), Quadrilha Selvagem (1969), Cães de Palha (1971), Junior Bonner (1972), Pat Garret & Billy the kid (1973), Cruz de Ferro (1977) ou Combóio dos Duros (1978), encheram-me as medidas. Mas existe um filme que talvez não seja tão conhecido: Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974).
Alfredo Garcia fica com a cabeça a prémio ao engravidar a filha de um homem poderoso. O pai oferece um milhão de dólares pela sua cabeça. Bennie (Warren Oates) descobre que este já está morto. Corta-lhe a cabeça para receber a recompensa e desse modo, pôr termo à sua vida oca de sentido. O problema é que há muita gente atrás dessa cabeça!
Vamos assistir à viagem de um saco putrificado, que vai rodando de mão em mão, enquanto a sala de cinema alberga o cheiro nauseabundo de carne em decomposição e sentimos na pele o som das larvas a invadirem a cabeça do morto. Tais sensações ficaram gravadas na minha mente e já vi o filme há mais de 20 anos.
Como animar uma pessoa
A minha namorada na altura, hoje minha mulher, andava um pouco em baixo. Lembrei-me de fazer qualquer coisa para a animar. O dia estava cinzento e chuvoso. Vamos ao cinema, pensei. Como ela andava a estudar alemão, resolvi escolher um filme falado nessa língua. Ao entrar na sala ela já estava mais bem disposta até... até o filme começar. Escolhi nada mais nada menos que "Funny Games" (1997), do austríaco Michael Haneke, sem ter noção do que iria assistir.
Dois rapazes psicologicamente desequilibrados entram em casa de uma família fazendo reféns pai, mãe e filho. Usam-nos nos seus jogos sádicos. Desde amarrarem, baterem, violarem e matarem, há-de tudo. Um filme que incomoda e cativa, ao ponto da Joana o suportar até ao fim.
Como podem imaginar, ela saiu de lá um pouco perturbada, mas não foi assim tão grave, pois casou comigo na mesma.
Como podem imaginar, ela saiu de lá um pouco perturbada, mas não foi assim tão grave, pois casou comigo na mesma.
Passados estes anos, estou a tentar arranjar o remake que Michael Haneke fez do mesmo filme, para podermos ver em família, se a Joaninha ainda suportar...
domingo, 12 de abril de 2009
À porta do céu

Já lá vai o tempo em que nos punham em colégios internos e só nos viam no Verão. Já lá vai o tempo em que só podíamos fazer aquilo que as professoras, a maior parte das vezes freiras, mandavam. E o tempo em que as crianças abandonadas em orfanatos eram mal tratadas, já lá vai... ou não?
"As Irmãs de Maria Madalena" (2002 The Magdalene Sisters), realizado pelo actor/realizador Peter Mullan, é baseado em factos verídicos e descreve um desses conventos. As raparigas eram enviadas pelas próprias familias ou por outros orfanatos, para aí terem uma educação, supostamente, mais adequada. Para satisfação dos seus próprios caprichos as freiras obrigavam-nas a todo o tipo de castigos e aplicavam penas brutalmente severas, alimentando o seu sádico ego. Muitas dessas mulheres acabaram por morrer no próprio convento, cativas na sua angústia e sem nunca terem vivido.
Claro está que estamos a falar do século passado. Não, não me refiro ao século XIX. O último convento deste tipo fechou, na Irlanda, há pouco mais de dez anos.
Filme premiado com Leão de Ouro no festival de Veneza 2002 teve mais 12 prémios e 12 nomeações nos diversos festivais de cinema. É um filme que me tocou profundamente, porque não está tão longe assim da realidade da minha geração.
sábado, 11 de abril de 2009
Procura-se carne fresca

Quando era miúdo brincava com o meu irmão, fingindo sermos comerciantes. A certa altura, tínhamos uma cadeia de talhos e, com as ferramentas do meu pai, imitando facas e cutelos, cortávamos a carne e aviávamos os fregueses: salsichas, costoletas, bifanas, entrecosto, entremeada, rim, fígado, nada recusávamos servir. Tínhamos balança e o arame para estender a roupa servia para ter a carne pendurada. Escusado será dizer que nem eu nem o meu irmão enveredamos por aquele caminho, felizmente.
Bjarn (Nicolaj Lie Kaas) e Svend (Mads Mikkelsen) tiveram a mesma ideia que eu e o meu irmão, mas desta feita criaram um talho real. Com feitios bem distintos, um com frequente síndrome de inferioridade e o outro que não quer saber de coisa alguma, descobrem a receita ideal para um negócio de sucesso. Esse acaso dá-lhes um objectivo de vida, do qual eles não se conseguem livrar, ou estariam a arriscar o negócio em ascensão. Leva-nos a pensar até que ponto estaríamos dispostos a ir para vingar profissionalmente ou para manter o sucesso alcançado. Oh vida a quanto obrigas!
Anders Thomas Jensen, realizador dinamarquês presenteia-nos com uma comédia cheia de surpresas inimagináveis. “Carne fresca, procura-se” (2003) lembra-me um pouco a maravilhosa sensação que tive quando vi “Delicatessen”. A ele voltarei.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Vai um cigarrinho?
Fumador me confesso. Dois maços por dia. Eu sei que é demais e não deveria sequer fumar mas, existem momentos na história da minha vida que, sem um cigarro, não eram a mesma coisa. Muitos dos que fumamos não nos sabem a nada e mesmo alguns não sabem bem. Porque o fazemos? Aí entra o chamado vício. Vício esse que não me deixa sequer acabar este texto sem antes fumar uma grande cigarrada. Mas há mais, pego no telefone acendo um cigarro. Entro no carro... mais um cigarro. Um copo de whisky, um cigarro. Um café... sem cigarro?Nick Naylor (Aaron Eckhart) defende os interesses de uma grande tabaqueira e é dos melhores naquilo que faz. No começo do filme convence uma plateia inteira que ninguém da sua empresa, quer que aquele miúdo que está ao seu lado com cancro nos pulmões, por fumar há alguns anos, morra. Estariam a perder um cliente.
"Obrigado por fumar" pode classificar-se como comédia/drama visto que nos leva, a brincar, ao mundo do tabagismo e das suas consequências. Carregado de estrelas, este filme realizado por Jason Reitman em 2005, o mesmo que viria a realizar "Juno" dois anos mais tarde tem para mim uma frase que descreve bem as pessoas que vencem no mundo dos negócios. Quando o filho lhe pergunta porque é que o pai faz o que faz, ele responde-lhe que só o faz para pagar as contas. E como o faz é simples, a pessoa tem sempre razão basta que argumente melhor que o outro.
Isto é um sonho!
Todos nós temos um sítio especial e diferente onde nos escondemos. Mas existe um sítio comum a todos, na nossa mente, quando sonhamos acordados. Lá dentro podemos ser o que quisermos sem medo de críticas ou reprovações. Podemos idealizar o que quisermos, podemos ir onde o sonho nos levar. Podemos imaginar qual a reacção de uma certa pessoa num determinado momento e, a partir daqui, podemos conscientemente prever a nossa própria reacção a esse momento.
Este nosso domínio desaparece a partir do momento em que passamos a um estado inconsciente, onde deixamos de comandar para ser comandados, onde estamos realmente a sonhar. Ou não? O que acontece se a linha que separa a realidade do imaginário não fôr assim tão clara?
Michel Gondry, realizador de clips musicais tem na “La Science dês Rêves” (2006) (A Ciência dos Sonhos) mais uma longa metragem. Ele cria um imaginário na personagem de Stéphane (Gael Garcia Bernal) onde representa os sonhos como se fossem passados num canal de televisão. Aqui os sonhos são trabalhados como se de uma verdadeira ciência se tratasse. Os sentimentos dele em relação à mãe, ao padrasto, ao pai, aos colegas de trabalho e às pessoas por quem se apaixona, são aí debatidos e explorados.
Banalidades
Imaginem-se assassinos. Qualquer um o pode ser. Para isso basta um punhal, uma faca, uma pistola ou uma espingarda enfim, uma arma que faça o serviço. Mas mais importante que isso… nervos de aço. Mas vamos imaginar que têm tudo isto e saiem para a rua preparados para matar. Encontram o vosso alvo e BUM. Está feito. E agora? O que fazer com o corpo que jaz no chão sem vida?
Ben (Benoît Poelvoorde) vai mostrar-nos não só a melhor maneira de “despachar” uma pessoa, como também nos ensina a fazer desaparecer o cadáver ensanguentado. Cada caso é um caso, dirá ele. Vai depender do tipo de defunto. Se é alto, baixo, anão, magro, gordo, se sofre do coração, se é cego, surdo ou mudo, e por aí fora. “Manual de Instruções para Crimes Banais” (1992) (C’est arrivé près de chez vous) Filme do belga Rémy Belvaux.
Aconselho vivamente este filme mas cuidado, pois à medida que o filme vai rodando a equipe técnica vai sendo morta e, a vossa própria percepção do que é ficção vai-se diluindo.
Para além do trailer deste filme, houve um pequeno excerto que, quanto a mim que vi o filme em 1993, marcou a essência do mesmo.
terça-feira, 31 de março de 2009
Parar o tempo
Se pudessem parar o tempo o que fariam?
Se tivessem pela frente um mundo inteiro parado e só vocês respiravam, o que eram capazes de fazer?
Se tivessem pela frente um mundo inteiro parado e só vocês respiravam, o que eram capazes de fazer?
Levei toda a minha infância a sonhar com "Never Ending Story". Alguém que nos dizia que tínhamos que sonhar ou esse mundo acabaria. Eu segui à risca. Nunca parei de acreditar que existiriam coisas para além da nossa vida do dia-a-dia. Agarrava numa pedra grande e dela fazia um castelo. Das pedras mais pequenas, soldados para defender o território. As folhas que apanhava eram dragões alados que atacavam o castelo. Ramos e troncos de poderosos cavaleiros que defendiam com bravura a torre do castelo onde vivia a princesa. Cresci e… continuo a sonhar, coisas diferentes bem sei, mas sempre a sonhar parar o tempo.
O filme de que vos venho falar é ingénuo, artístico, bonito, imaginário.
O principiante realizador inglês Sean Ellis tras-nos um filme com personagens bem construídas e imaginadas. O argumento é fantástico. E não acredito que a produção fosse muito cara.
Cashback (2006) entre nós traduzido para “Bem Vindo ao Turno da Noite”. Ben Willis (Sean Biggerstaff) tem o dobro do tempo que nós temos para sonhar, pois por uma zanga de amor perdeu o sono. Com essas oito horas sem dormir decide arranjar um turno à noite num supermercado para assim as preencher. Como aluno de belas artes que é, pára o tempo para assim ter tempo para contemplar a beleza dos seus modelos.
Sabor a...
Muitos são os realizadores que tomam o caminho de chocar o público. Tsai Ming-Liang não é excepção. Já o tinha feito, com algum sucesso em "Bu San" (2003) através da personagem que coxeava porque no lugar de uma perna tinha um braço...
Volta a tentar com o musical made in Taiwan "Tian bian yi duo yun" (2005). "O Sabor da Melancia" tem cenas bastante interessantes mas não tão ousadas quanto provavelmente ele desejaria.
Shiang-Chyi (Chen Shiang-Chyi) volta à sua cidade natal onde encontra um clima indiscritível associado à falta de água. Isto leva-a, entre outras coisas, a matar a sede com melancia! Ela começa um romance com um suposto vendedor de relógios Hsiao-Kang (Lee Kang-Sheng) que afinal é actor de filmes pornográficos de baixa produção. Tão baixa que parte do filme é filmado com uma actriz porno japonesa desmaiada, o que não facilita em nada as manobras. Shiang-Chyi segue de perto o "namorado" e acaba por surpreender tudo e todos ao tomar parte activa na cena final.
As músicas transmitem para mim uma vivacidade singular contrastando com o cenário de degradação instalado.
Embora a crítica não o tenha recebido de braços abertos, este filme levou para casa 3 prémios no Festival de Berlim de 2005 incluindo o Urso de Prata.
sexta-feira, 27 de março de 2009
GROTESCO
O que pensariam se vos dissesse que andava a “comer” a patroa… E que ela pariu um filho meu… E que o cabrão do marido me deu um tiro nos cornos… E que o filho da mãe do puto ganha a vida a comer e a vomitar? Tudo isto para acabar embalsamado...
Taxidermia filme largamente premiado, escrito e realizado em 2006 pelo húngaro Gyorgy Pálfi, um conto sobre três gerações de homens do qual não conseguimos tirar os olhos até ao final... e que final.
Eis a minha proposta.
Mais do mesmo
Depois de "perder a virgindade" face ao cinema tradicional com Greenaway seguiram-se do mesmo realizador:
- O contrato (1982)
- As cólicas de um arquitecto (1987)
- Maridos à água (1988)
- O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante dela (1989)
- Os livros de Próspero (1991)
- O bebé de Macôn (1993)
Para além de tudo isto Greenaway convida músicos como Michael Nyman e Wim Mertens para comporem puras obras-primas. Desta forma podemos desfrutar visual e musicalmente de filmes aos quais eu chamaria GENIAIS.
E como hoje é sexta-feira aqui fica a minha sugestão para o fim-de-semana.
- O contrato (1982)
- As cólicas de um arquitecto (1987)
- Maridos à água (1988)
- O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante dela (1989)
- Os livros de Próspero (1991)
- O bebé de Macôn (1993)
Os filmes deste realizador britânico são pinturas autênticas, manifestações de luz natural, naturezas mortas e cores carregadas. Temas originais compõem histórias criativas cheias de imaginação e sensibilidade. Como descrevê-los? Não é fácil. Cada um tem a sua particularidade.
Para além de tudo isto Greenaway convida músicos como Michael Nyman e Wim Mertens para comporem puras obras-primas. Desta forma podemos desfrutar visual e musicalmente de filmes aos quais eu chamaria GENIAIS.
E como hoje é sexta-feira aqui fica a minha sugestão para o fim-de-semana.
A minha primeira vez
Proponho falar-vos um pouco da minha iniciação nos filmes que ninguem vê. Começou cedo o meu interesse por todo o tipo de filmes, cinema era e é o meu mundo. É onde me refugío da sociedade, onde sou tudo e nada.
Em 1985 (tinha apenas 15 anos) levaram-me ao Quarteto para vêr um "filme de qualidade" (como lhe chamavam na altura), de um realizador que tinha começado na edição de filmes e que já há alguns anos se iniciara nas longas metragens. Seu nome Peter Greenaway. Um nome que nunca mais esqueci e que me abriu as portas para outro tipo de cinema.
Quando me perguntam qual o primeiro filme que vi de Peter Greenaway e o que mais me marcou respondo que o filme foi “Um Z e dois Ós”. Para o descrever dizia então que era a história de dois amigos a serem comidos vivos por caracóis.
É claro que o filme não é só isto, mas continuo a adorar vêr a reacção dos outros quando lhes digo ter visto um filme assim. E que até gosto muito, tanto quanto as reacções das pessoas.
Imaginem a preocupação da minha mãe em ter um filho com 15 anos a devorar filmes sobre a decomposição de corpos. "Criei um monstro!" - deverá ela ter pensado.
Subscrever:
Mensagens (Atom)