quarta-feira, 27 de maio de 2009

Uma chamada para o mundo


Quando eu era miúdo, o sexo era tabu lá em casa. Pura e simplesmente não se falava sobre o assunto.

Ainda tenho presente a inédita sensação ao acordar de um sonho molhado. A descoberta do corpo, o despertar do prazer, faziam parte de uma aprendizagem muito íntima, quase secreta. Eu e os meus amigos comprávamos a famosa “Gina” e deliciávamo-nos a ver mulheres nuas. Na escola, a revista andava de mão-em-mão, originando apressadas e breves idas à casa de banho. Daí, aos risinhos histéricos das meninas que assistiam connosco aos filmes porno, foi um tirinho. Os filmes pornográficos surgiam da necessidade de algo mais, da natural vontade de aprender, da busca de respostas (achávamos nós) capazes de, heroicamente, nos levar à acção.

Em 1995, Larry Clark, sob a produção de Gus Van Sant, faz um filme chocante sobre a adolescência. Eu tinha 25 anos e fiquei perplexo com a maneira caótica como a vida e o mundo são abordados. Com apenas 12, 13 anos de idade, estes miúdos faziam coisas que eu, com a idade deles, não imaginava poder fazer. Sexo, sexo em grupo, com drogas e álcool à mistura, são assustadoramente banalizados. Pela primeira vez, o tema da SIDA é abordado no cinema, na perspectiva de uma adolescente que contraí o vírus e, na tentativa de evitar que a doença se propague, procura o seu parceiro sexual, para o alertar.

“Kids”, (1995), é o primeiro filme deste realizador, que nunca mais abandona este tema. Vale bem a pena ver Rosário Dawson, com apenas 16 anos, e Chloe Sevigny. O filme marcou-me de tal maneira, que me levou a ver “Bully” (2001), “Ken Park” (2002) e “Wassup Rockers” (2005).

Macacas me mordam!

Não há dúvida que estamos perante uma sociedade machista. Mas, mesmo assim, existe quem insista em criar heroínas para as grandes telas. E não, não estou a falar das namoradas do Demolidor ou do Batman, isso aí... Frank Agrama resolveu criar uma gorila "de peso", estou a falar de “Queen Kong”, 1976.

A história é, basicamente a mesma, em versão feminina, desta feita em jeito de sátira ao King Kong de 1933. A gorila Queen Kong vai apaixonar-se pelo protagonista da história, Ray Fay (Robin Askwith), protegendo-o dos perigos da selva. O trocadilho dos nomes acentua o tom irónico do filme, visto que a actriz Fay Wray era a “namorada” do King Kong. Embora Ray sinta alguma coisa pela gorila, não vai evitar que a raptem e a levem para a cidade.

Filme em tom de gozação, cómico/dramático, musical e com muitas mulheres quase despidas (algumas até valem a pena), chega a ser considerado um filme de culto para alguns cinéfilos menos exigentes.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O menino dança?

Gosto imenso de ver filmes que me transportam para outros mundos. Consigo ver a vida sob outro prisma, imagino-me numa pele que não a minha. Fico fascinado com as diferenças de atitudes, os diferentes comportamentos culturais perante a educação, a família, a religião, a moral, o amor...

Nas minhas viagens pelo cinema-mundo, deparei-me com um filme que me tocou profundamente: "Os passos do amor" (Sipur Hatzi-Russi), escrito e realizado pelo israelita Eitan Anner, em 2006.

Chen (Vladimir Volov), filho de mãe russa e pai israelita, é um jovem que cresceu no seio da miscigenação cultural herdada dos pais. Rude e machista, o pai acha que a mulher nasceu para cuidar da casa e tomar conta dos filhos. A ambição de vida da mãe, que gosta de dançar, cantar e divertir-se, é criticada pelo marido, que vê nessa atitude o lado boémio daquele povo.

No dia em que comemoram anos de casados, o marido recusa-se a ir ao baile, e é Chen quem acompanha a mãe, sem imaginar as consequências que isso iria acarretar na sua vida. Surpreendido por um amor à primeira vista, ingressa secretamente na escola de dança, na expectativa de conquistar a bailarina russa que viu naquele dia, e cuja principal ambição é vencer o campeonato nacional. A escola, que é dirigida por um par de ex-bailarinos profissionais, é o único elo que os mantém unidos, enquanto casal.

Cha cha cha, rumba e valsa vão ser os condimentos principais neste drama sensível onde o prazer de "dançar por dançar" transcende todas as fronteiras.

domingo, 10 de maio de 2009

"Grande Vaca!"


Eu sou homem com H. Na sociedade em que vivo, o homem tem muito mais liberdade, pois mesmo que lhe "descubram a careca", não é tão mal visto. Por outro lado, se for a mulher a assumir uma atitude mais leviana ou tiver comportamentos menos expectáveis, automaticamente é criticada e rotulada de puta.

A perda de desejo é mais recorrente nas mulheres que nos homens. Deixem propor-vos o seguinte cenário: a mulher chega a casa e é constantemente ignorada sexualmente pelo marido. O sangue corre-lhe nas veias deixando-a excitada, sedenta de sexo. Beija-o e ele evita-a, preferindo a televisão. Tenta uma abordagem mais directa, e ele mostra-se indiferente. Passa um dia, uma semana, um mês e a sua frustração vai ganhando forma.

"Romance X" (1999), da francesa Catherine Breillat, fala-nos dos demónios interiores da sensual Marie (Caroline Ducey), em relação à sua vida conjugal e sexual. Casada com um modelo sem apetite sexual (por ela), a jovem decide "vingar-se", na tentativa de preencher um vazio, fruto de meses de jejum. Um filme explícito (cenas de sexo reais e cruas) sem ser pornográfico.

Eu quero ter mais respeito pelas mulheres, e por aquilo que elas possam escolher para a sua vida, mas sou muito Homem para o admitir. Confesso, porém, que este filme fez estremecer as minhas másculas convicções e deixou sérias questões a pairar na minha cabeça.

sábado, 9 de maio de 2009

Eu, viúva, 8 anos

Tenho oito anos. Sou uma menina extrovertida e gosto de brincar com as minhas bonecas. Tenho uma imaginação fértil, digna de uma criança da minha idade e adoro inventar histórias com os meus brinquedos. Faço teatros, mímicas e gosto de imitar vozes. Danço, canto, pulo e a minha energia parece não se gastar. Anseio pela chegada dos meus pais a casa para poder ouvir as novidades de mais um dia. Gosto de rir, de falar e de brincar com eles. Não tenho preocupações nem responsabilidades. Sou uma menina de oito anos.

Hoje vêm-me buscar. O meu pai perguntou-me se me lembrava de ter casado. Não sei o que isso quer dizer, nem quero saber. Tenho o meu próprio mundo, e isso basta-me.

Vão levar-me para longe dos meus pais e não me sinto preparada para tal. O meu suposto marido morreu e ninguém me explica o que está a acontecer. Adivinho que isso não é bom, não sei porquê, não entendo.

Entro numa casa onde só há mulheres. Que fazem elas ali? Onde estão os homens que deveriam tomar conta de nós? Onde está a felicidade destas pessoas que estão apenas à espera que o tempo passe? Não percebo.
Eu apenas quero brincar. Eu só tenho oito anos de idade.

"Água" (2005), da indiana Deepa Mehta é o último filme da trilogia Elementos, a que pertencem também "Fogo" (1996), e "Terra" (1998).

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tatoos

Há filmes que, por uma razão ou por outra, cravaram a minha memória, sem que na altura entendesse a dimensão dessas marcas. Os anos passam e certos pormenores permanecem. Porquê? Simplesmente porque era o filme para ver naquele dia, àquela hora, naquele minuto.

“A Luz” (1987), do Maliano Souleymane Cissé, que vi no cinema ACS em Alvalade, foi um desses filmes. Pouco me lembro. Para além da fotografia, recordo vagamente a viagem de um homem com poderes mágicos. Nunca me esqueci do nome do realizador, do título do filme e da sensação de ter saído do cinema "iluminado".

“Café Bagdad”, realizado pelo Alemão Percy Adlon em 1987, foi outro dos casos. Ainda tenho presente as personagens do filme, as vidas de pessoas que encontramos todos os dias, mas cuja vulgaridade não nos leva a procurar conhecer mais a fundo como, por exemplo, a gorda Jasmin (Marianne Sagebrecht).



O pormenor da música de Ryuichi Sakamoto enfeitiçou-me no filme "Merry Christmas Mr. Lawrence" (1983), do realizador japonês Nagisa Oshima.




A cor dos filmes de Akira Kurosawa transmitiram-me sensações inesquecíveis. Pode parecer uma mera curiosidade, mas o facto de os filmes serem previamente desenhados em papel pelo realizador, não é puro acaso. Lembro-me de "obrigar" os meus pais e o meu irmão a ir ao cinema mundial ver o "RAN" (1985). Claro que aproveitaram as quase três horas de filme para dormir, enquanto eu me rendi às lutas de cores.

Nunca me hei-de esquecer da "maluqueira" de Terry Gilliam em "Brasil: o outro lado do sonho" (1985), bem como da soberba interpretação de Robert De Niro.

O primeiro filme dos Irmãos Coen, "Sangue por Sangue" (1984), foi, para mim, genial. Perfeito enredo filme Noir: marido-mulher-amante envolvidos em esquemas intensos, quase desprovido de luz (eu até tinha ideia do filme ser a preto e branco).

Pedro Almodovar e Carmen Maura fizeram-me, macabramente, sorrir com a desgraça alheia em "Que fiz eu para merecer isto" (1984).

E quem se esquece da nudez explícita de Valérie Kaprisky no filme do polaco Andrzej Zulawski, "A Mulher Pública" (1984)?

Enfim, poderia estar aqui a escrever páginas e páginas sobre pormenores que nunca me abandonaram em filmes que outrora vi. São esses pequenos-grandes nadas que os tornam especiais, autênticas tatuagens.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Brincar aos médicos

A forma como enfrentaríamos a morte das pessoas seria diferente se trabalhássemos com ela no dia-a-dia? Tornar-se-ia banal? A questão faz-nos pensar na maneira como abordamos o tema da morte. Morgues, cemitérios e agências funerárias tratam a morte por "tu". Médicos, bombeiros e soldados enfrentam-na todos os dias. Outros... "brincam" com ela.

Se te propusessem matar alguém, quem matarias? Será mesmo preciso uma razão para matar? Ou qualquer motivo serve? Como animais que somos, fará parte da natureza humana?

Patologia (2008) - derivado do grego pathos, sofrimento, doença, e logia, ciência, estudo - de Marc Schoelermann, é um filme extraordinário e inquietante. O início do filme remete para uma possível realidade passada numa morgue, e desafia o bom senso, no sentido em que os cadáveres são tratados como brinquedos de carne e osso. Um grupo de jovens médicos-legistas entra numa escalada competitiva, um verdadeiro "jogo", para conseguir determinar as causas da morte. A rivalidade entre colegas obriga a um despique constante para eleger aquele que consegue descobrir a razão do corpo estar sem vida. Mas, a certa altura, o grau de exigência das autópsias deixa de ser desafiante, e a busca de novos estímulos leva-os a estados alucinantes e inconscientes. Há que subir de patamar.

"Let's take a look inside"?




quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sangue, muito sangue

Os primeiros filmes que vi do chamado cinema Gore foram, se não estou em erro, de Umberto Lenzi: “Comidos vivos” (1980) e “Canibal Feroz” (1981). Mas quem me convenceu a seguir este tipo de cinema com a maior das atenções foi o realizador americano Sam Raimi com a triologia Evil Dead, "A Noite dos Mortos Vivos" (1981), "A Morte Chega de Madrugada" (1987) e "O Exercito das Trevas" (1992). As pessoas que foram comigo ao cinema, saíram a meio do filme, pois acharam que aquilo “era uma palhaçada”. Sejamos justos, ou uma pessoa entra dentro do espírito do filme ou… uma mão ensanguentada a correr atrás das personagens, a dar-lhes estaladas e apalpadelas no rabo, não é para todos.

O cinema Gore é conhecido pelas exageradas cenas de desmembramentos vários, estripamentos, cabeças esmagadas, olhos furados, cérebros abertos e sangue, muito sangue. Filmes violentos existiram e sempre vão existir, mas o que torna o Gore irresistível são as suas imagens explícitas. Este tipo de filmes atrai as pessoas pelas suas cenas chocantes e de mau gosto. Enquanto uns se sentem seduzidos, outros poderão perguntar: "mas porque quero eu ver filmes com sangue e desmembramentos?" mas essa não é a questão. A questão é poder não vê-los, por opção. A escolha é sempre importante. Devemos poder escolher por nós, e não sancionar as escolhas de terceiros.

Amante deste tipo de cinema, passei a apreciar o género e vi: "A Noite dos Mortos-Vivos" (1968), “O Despertar dos Mortos” (1978); “O Dia dos Mortos” (1985) de George A. Romero; “Massacre no Texas” (1974) de Tobe Hooper; “Holocausto Canibal” (1980) realizado por Ruggero Deodato; “Bad Taste” (1987), “Meet the Feebles” (1989) e “Braindead” (1992) de Peter Jackson; “Suspira” (1977), “Inferno” (1980) e “Phenomena” (1985) de Dário Argento ; “Fogo Maldito” (1987) de Clive Barker; “A maldição dos mortos-vivos” (1988) foi o nome dado em português ao filme de Wes Craven, “The serpent and the rainbow”. Ainda bem que o filme não foi traduzido à letra, senão teria ido ao cinema com a minha filha a achar que ia ver um filme do principezinho.


sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sopas de tomate

Após uma noite tranquila, a cidade volta a acordar para mais um dia. Uma a uma, as ruas vão-se enchendo de uma multidão incógnita. Os comerciantes apregoam os seus produtos, as lojas abrem as portas para receber os seus estimados clientes. Miúdos levados às escolas, graúdos a caminho dos empregos. Carros e mais carros invadem as ruas, até há uns minutos atrás desertas. As árvores abanam os seus ramos em direcção ao céu, perdendo algumas folhas pelo caminho. Tudo corre com normalidade na vida destas pessoas.

Ouve-se um estrondo ao longe, a terra treme um pouco. Mas passa despercebido aos habitantes desta cidade. Passam-se uns minutos… um novo tremor, desta feita bem sentido. As pessoas não sabem bem o que se passa. Param por uns minutos mas voltam à correria do costume.

Mas, de repente… o barulho é ensurdecedor, a terra parece fugir debaixo dos pés. Elas deixam de fazer o que estavam a fazer e a visão que lhes aparece é inimaginável. É aterrorizadora. É indescritível.

Elas correm. Elas fogem. Escondem-se… mas não há para onde ir. A cidade é tomada, e os corpos dos cidadãos, que outrora viviam naquela pacata cidade, amontoam-se ensanguentados pelas ruas. Cabeças abertas, membros dispersos, tripas esventradas, invadem a cidade sangrenta.

Não há como pará-los. Ninguém sabe o que fazer. Nem Estados ou governos. Nem exército ou marinha. O mundo está perdido.
Ninguém está a salvo. Esta cidade está tomada. Preparam-se agora para "ganhar tomates" e invadir outra.


terça-feira, 21 de abril de 2009

Gooooooolo!


Futebol não é bem o meu forte. Evidentemente que sou adepto de um clube. O meu avô era desse clube, o meu pai também é, e eu, ainda puto, acabei por me converter a esse mesmo clube.

Quando chego ao escritório no malfadado dia de Segunda-feira "levo" sempre com os meus colegas a falar da jornada do fim-de-semana. Eu não consigo acompanhá-los. Para além de não ter visto grande coisa, eles utilizam palavras e frases que desconheço, género: “domina o esférico e faz uma assistência; defesa homem a homem ou à zona; pontapé na atmosfera; meio-campo em losango…” por mim, até acho que deveria ter dado mais atenção às aulas de filosofia!

Apesar de não gostar, vou abrir uma excepção para o chamado desporto-rei, e falar de cinco filmes que têm importância naquilo a que me proponho. E não estou a falar da “Angústia do guarda-redes na altura do penalty” (1972) de Wim Wenders, cuja a única memória que tenho prende-se com a curiosidade que o título desperta.

Começo pelas senhoras: Bend it like Beckham (2002) do queniano Gurinder Chadha, que nos fala dos costumes indianos, e de como uma rapariga vai enfrentá-los, ao optar por uma carreira numa equipa de futebol feminino.




Dias de futebol (2003) do Espanhol David Serrano, em que quatro amigos com vidas desprovidas de qualquer interesse têm finalmente um objectivo comum: voltar a juntar a equipa de futebol que tinham na sua juventude.

Na maior (2000) do Inglês Mark Herman, onde dois amigos pobres e delinquentes, tudo vão fazer para conseguir um passe de época para assistirem aos jogos do Newcastle.

À semelhança de “Fuga para a vitória” (1981) de John Huston, A Máquina (2001) do realizador Barry Skolnick, conta-nos a história de alguns prisioneiros que se juntam e formam uma equipa para defrontar os guardas prisionais.

E por fim Stephen Chow traz-nos uma comédia de futebol "marcial" cheia de acção e efeitos especiais, Shaolin Soccer (2001).




Com tantas sugestões... só eu sei porque não fico em casa.

Reflexivo


Há quem diga que as crianças são cruéis. Que os mais fortes tendem a pôr de parte os mais fracos. Temos o exemplo disso na obra “O Senhor das Moscas" (Lord of the flies) do escritor William Golding, a partir da qual foram feitos três filmes.

Mas não precisamos de ler o livro, ou ver o filme para sabermos que isso é verdade. Todos nós, quando pequenos, púnhamos de parte aquelas crianças que, por algum motivo, se diferenciavam: tinham óculos, eram gordas, tinham um defeito físico, gaguejavam… Enfim, ou eram "normais" ou estavam tramadas. Mas afinal, no homem prevalece a maldade ou a bondade intrínsecas?

Quem não escapa à maldade dos miúdos, é certo, são os animais. O gozo que me dava meter uma palha pelo rabo de um moscardo, para ele voar sempre em frente, indo contra o que lhe aparecesse no caminho... meter cascas de nozes nas patas dos gatos, largá-los nas descidas de alcatrão e vê-los sem qualquer controlo até esbarrarem contra um muro... ou mesmo agarrar num sapo e meter-lhe um cigarro aceso na boca e esperar que ele explodisse.

Não fui o primeiro, nem serei o último a cometer tais "atrocidades".

“A Criança Espelho” (1990 The reflecting skin), do realizador inglês Philip Ridley começa onde eu acabei. Três miúdos agarram um sapo, enchem-no de ar e, com uma fisga, fazem explodir o animal. O filme é passado numa aldeia rural na década de 50, e conta a experiência de vida de um adolescente onde sexo, violência e morte são uma constante. Não encontrando uma explicação para as coisas, deturpa a realidade, levando-o a pensar que a vizinha Dolphin Blue (Lindsay Duncan), com quem o irmão (Viggo Mortensen) namora, é vampira e anda a matar as pessoas da comunidade.

Na fase da adolescência, ou nos deixamos levar pelo "faço o que gosto", seguindo a fantasia, ou se decide com sabedoria "faço o que me faz bem". À velha questão: "o homem é bom ou mau?" o jovem Seth Dove (Jeremy Cooper) responde com o reflexo da sua própria adolescência.


quinta-feira, 16 de abril de 2009

Quem canta seus males espanta

Enquanto o fumo esvoaça à minha frente os meus olhos perdem-se no infinito, e tudo passa pela minha mente. Nesta altura, perdido em sonhos, sou capaz de vasculhar a minha mente e ir ao encontro de sentimentos aí guardados. E como expressar esses sentimentos?

John Turturro encontrou, na sua terceira longa-metragem, a maneira de as suas personagens expressarem os sentimentos mais profundos. Todos elas falam, conversam, dialogam, mas quando chega a altura de expressarem os seus sentimentos mais profundos... cantam.

Para demonstrar como ele descobriu que a mulher o traía Cousin Bo (Christopher Walken) canta “Delilah”, ao som de Tom Jones marcando um dos momentos altos do filme (vejam o clip).

“Romance & Cigarros” (2005) é um filme sobre a realidade vivida pela classe trabalhadora, em que o dia-a-dia é retratado através da música. James Gandolfini, Susan Sarandon, Kate Winslet, Steve Buscemi, Christopher Walken, Mary-Louise Parker, Eddie Izzard, Adam LeFevre são alguns dos actores que levam este filme a bom porto.


terça-feira, 14 de abril de 2009

De perder a cabeça

O trabalho do cineastra Sam Peckinpah é para mim um dos mais fascinantes que tive oportunidade de conhecer. Filmes como: Major Dundee (1965), Quadrilha Selvagem (1969), Cães de Palha (1971), Junior Bonner (1972), Pat Garret & Billy the kid (1973), Cruz de Ferro (1977) ou Combóio dos Duros (1978), encheram-me as medidas. Mas existe um filme que talvez não seja tão conhecido: Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974).

Alfredo Garcia fica com a cabeça a prémio ao engravidar a filha de um homem poderoso. O pai oferece um milhão de dólares pela sua cabeça. Bennie (Warren Oates) descobre que este já está morto. Corta-lhe a cabeça para receber a recompensa e desse modo, pôr termo à sua vida oca de sentido. O problema é que há muita gente atrás dessa cabeça!

Vamos assistir à viagem de um saco putrificado, que vai rodando de mão em mão, enquanto a sala de cinema alberga o cheiro nauseabundo de carne em decomposição e sentimos na pele o som das larvas a invadirem a cabeça do morto. Tais sensações ficaram gravadas na minha mente e já vi o filme há mais de 20 anos.


Como animar uma pessoa

A minha namorada na altura, hoje minha mulher, andava um pouco em baixo. Lembrei-me de fazer qualquer coisa para a animar. O dia estava cinzento e chuvoso. Vamos ao cinema, pensei. Como ela andava a estudar alemão, resolvi escolher um filme falado nessa língua. Ao entrar na sala ela já estava mais bem disposta até... até o filme começar. Escolhi nada mais nada menos que "Funny Games" (1997), do austríaco Michael Haneke, sem ter noção do que iria assistir.

Dois rapazes psicologicamente desequilibrados entram em casa de uma família fazendo reféns pai, mãe e filho. Usam-nos nos seus jogos sádicos. Desde amarrarem, baterem, violarem e matarem, há-de tudo. Um filme que incomoda e cativa, ao ponto da Joana o suportar até ao fim.

Como podem imaginar, ela saiu de lá um pouco perturbada, mas não foi assim tão grave, pois casou comigo na mesma.

Passados estes anos, estou a tentar arranjar o remake que Michael Haneke fez do mesmo filme, para podermos ver em família, se a Joaninha ainda suportar...

domingo, 12 de abril de 2009

À porta do céu


Já lá vai o tempo em que nos punham em colégios internos e só nos viam no Verão. Já lá vai o tempo em que só podíamos fazer aquilo que as professoras, a maior parte das vezes freiras, mandavam. E o tempo em que as crianças abandonadas em orfanatos eram mal tratadas, já lá vai... ou não?

"As Irmãs de Maria Madalena" (2002 The Magdalene Sisters), realizado pelo actor/realizador Peter Mullan, é baseado em factos verídicos e descreve um desses conventos. As raparigas eram enviadas pelas próprias familias ou por outros orfanatos, para aí terem uma educação, supostamente, mais adequada. Para satisfação dos seus próprios caprichos as freiras obrigavam-nas a todo o tipo de castigos e aplicavam penas brutalmente severas, alimentando o seu sádico ego. Muitas dessas mulheres acabaram por morrer no próprio convento, cativas na sua angústia e sem nunca terem vivido.

Claro está que estamos a falar do século passado. Não, não me refiro ao século XIX. O último convento deste tipo fechou, na Irlanda, há pouco mais de dez anos.

Filme premiado com Leão de Ouro no festival de Veneza 2002 teve mais 12 prémios e 12 nomeações nos diversos festivais de cinema. É um filme que me tocou profundamente, porque não está tão longe assim da realidade da minha geração.


sábado, 11 de abril de 2009

Procura-se carne fresca


Quando era miúdo brincava com o meu irmão, fingindo sermos comerciantes. A certa altura, tínhamos uma cadeia de talhos e, com as ferramentas do meu pai, imitando facas e cutelos, cortávamos a carne e aviávamos os fregueses: salsichas, costoletas, bifanas, entrecosto, entremeada, rim, fígado, nada recusávamos servir. Tínhamos balança e o arame para estender a roupa servia para ter a carne pendurada. Escusado será dizer que nem eu nem o meu irmão enveredamos por aquele caminho, felizmente.

Bjarn (Nicolaj Lie Kaas) e Svend (Mads Mikkelsen) tiveram a mesma ideia que eu e o meu irmão, mas desta feita criaram um talho real. Com feitios bem distintos, um com frequente síndrome de inferioridade e o outro que não quer saber de coisa alguma, descobrem a receita ideal para um negócio de sucesso. Esse acaso dá-lhes um objectivo de vida, do qual eles não se conseguem livrar, ou estariam a arriscar o negócio em ascensão. Leva-nos a pensar até que ponto estaríamos dispostos a ir para vingar profissionalmente ou para manter o sucesso alcançado. Oh vida a quanto obrigas!


Anders Thomas Jensen, realizador dinamarquês presenteia-nos com uma comédia cheia de surpresas inimagináveis. “Carne fresca, procura-se” (2003) lembra-me um pouco a maravilhosa sensação que tive quando vi “Delicatessen”. A ele voltarei.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Vai um cigarrinho?

Fumador me confesso. Dois maços por dia. Eu sei que é demais e não deveria sequer fumar mas, existem momentos na história da minha vida que, sem um cigarro, não eram a mesma coisa. Muitos dos que fumamos não nos sabem a nada e mesmo alguns não sabem bem. Porque o fazemos? Aí entra o chamado vício. Vício esse que não me deixa sequer acabar este texto sem antes fumar uma grande cigarrada. Mas há mais, pego no telefone acendo um cigarro. Entro no carro... mais um cigarro. Um copo de whisky, um cigarro. Um café... sem cigarro?

Nick Naylor (Aaron Eckhart) defende os interesses de uma grande tabaqueira e é dos melhores naquilo que faz. No começo do filme convence uma plateia inteira que ninguém da sua empresa, quer que aquele miúdo que está ao seu lado com cancro nos pulmões, por fumar há alguns anos, morra. Estariam a perder um cliente.

"Obrigado por fumar" pode classificar-se como comédia/drama visto que nos leva, a brincar, ao mundo do tabagismo e das suas consequências. Carregado de estrelas, este filme realizado por Jason Reitman em 2005, o mesmo que viria a realizar "Juno" dois anos mais tarde tem para mim uma frase que descreve bem as pessoas que vencem no mundo dos negócios. Quando o filho lhe pergunta porque é que o pai faz o que faz, ele responde-lhe que só o faz para pagar as contas. E como o faz é simples, a pessoa tem sempre razão basta que argumente melhor que o outro.

Isto é um sonho!

Todos nós temos um sítio especial e diferente onde nos escondemos. Mas existe um sítio comum a todos, na nossa mente, quando sonhamos acordados. Lá dentro podemos ser o que quisermos sem medo de críticas ou reprovações. Podemos idealizar o que quisermos, podemos ir onde o sonho nos levar. Podemos imaginar qual a reacção de uma certa pessoa num determinado momento e, a partir daqui, podemos conscientemente prever a nossa própria reacção a esse momento.
Este nosso domínio desaparece a partir do momento em que passamos a um estado inconsciente, onde deixamos de comandar para ser comandados, onde estamos realmente a sonhar. Ou não? O que acontece se a linha que separa a realidade do imaginário não fôr assim tão clara?

Michel Gondry, realizador de clips musicais tem na “La Science dês Rêves” (2006) (A Ciência dos Sonhos) mais uma longa metragem. Ele cria um imaginário na personagem de Stéphane (Gael Garcia Bernal) onde representa os sonhos como se fossem passados num canal de televisão. Aqui os sonhos são trabalhados como se de uma verdadeira ciência se tratasse. Os sentimentos dele em relação à mãe, ao padrasto, ao pai, aos colegas de trabalho e às pessoas por quem se apaixona, são aí debatidos e explorados.

Banalidades

Imaginem-se assassinos. Qualquer um o pode ser. Para isso basta um punhal, uma faca, uma pistola ou uma espingarda enfim, uma arma que faça o serviço. Mas mais importante que isso… nervos de aço. Mas vamos imaginar que têm tudo isto e saiem para a rua preparados para matar. Encontram o vosso alvo e BUM. Está feito. E agora? O que fazer com o corpo que jaz no chão sem vida?

Ben (Benoît Poelvoorde) vai mostrar-nos não só a melhor maneira de “despachar” uma pessoa, como também nos ensina a fazer desaparecer o cadáver ensanguentado. Cada caso é um caso, dirá ele. Vai depender do tipo de defunto. Se é alto, baixo, anão, magro, gordo, se sofre do coração, se é cego, surdo ou mudo, e por aí fora. “Manual de Instruções para Crimes Banais” (1992) (C’est arrivé près de chez vous) Filme do belga Rémy Belvaux.

Aconselho vivamente este filme mas cuidado, pois à medida que o filme vai rodando a equipe técnica vai sendo morta e, a vossa própria percepção do que é ficção vai-se diluindo.

Para além do trailer deste filme, houve um pequeno excerto que, quanto a mim que vi o filme em 1993, marcou a essência do mesmo.





terça-feira, 31 de março de 2009

Parar o tempo

Se pudessem parar o tempo o que fariam?
Se tivessem pela frente um mundo inteiro parado e só vocês respiravam, o que eram capazes de fazer?

Levei toda a minha infância a sonhar com "Never Ending Story". Alguém que nos dizia que tínhamos que sonhar ou esse mundo acabaria. Eu segui à risca. Nunca parei de acreditar que existiriam coisas para além da nossa vida do dia-a-dia. Agarrava numa pedra grande e dela fazia um castelo. Das pedras mais pequenas, soldados para defender o território. As folhas que apanhava eram dragões alados que atacavam o castelo. Ramos e troncos de poderosos cavaleiros que defendiam com bravura a torre do castelo onde vivia a princesa. Cresci e… continuo a sonhar, coisas diferentes bem sei, mas sempre a sonhar parar o tempo.

O filme de que vos venho falar é ingénuo, artístico, bonito, imaginário.
O principiante realizador inglês Sean Ellis tras-nos um filme com personagens bem construídas e imaginadas. O argumento é fantástico. E não acredito que a produção fosse muito cara.

Cashback (2006) entre nós traduzido para “Bem Vindo ao Turno da Noite”. Ben Willis (Sean Biggerstaff) tem o dobro do tempo que nós temos para sonhar, pois por uma zanga de amor perdeu o sono. Com essas oito horas sem dormir decide arranjar um turno à noite num supermercado para assim as preencher. Como aluno de belas artes que é, pára o tempo para assim ter tempo para contemplar a beleza dos seus modelos.


Sabor a...

Muitos são os realizadores que tomam o caminho de chocar o público. Tsai Ming-Liang não é excepção. Já o tinha feito, com algum sucesso em "Bu San" (2003) através da personagem que coxeava porque no lugar de uma perna tinha um braço...

Volta a tentar com o musical made in Taiwan "Tian bian yi duo yun" (2005). "O Sabor da Melancia" tem cenas bastante interessantes mas não tão ousadas quanto provavelmente ele desejaria.

Shiang-Chyi (Chen Shiang-Chyi) volta à sua cidade natal onde encontra um clima indiscritível associado à falta de água. Isto leva-a, entre outras coisas, a matar a sede com melancia! Ela começa um romance com um suposto vendedor de relógios Hsiao-Kang (Lee Kang-Sheng) que afinal é actor de filmes pornográficos de baixa produção. Tão baixa que parte do filme é filmado com uma actriz porno japonesa desmaiada, o que não facilita em nada as manobras. Shiang-Chyi segue de perto o "namorado" e acaba por surpreender tudo e todos ao tomar parte activa na cena final.

As músicas transmitem para mim uma vivacidade singular contrastando com o cenário de degradação instalado.

Embora a crítica não o tenha recebido de braços abertos, este filme levou para casa 3 prémios no Festival de Berlim de 2005 incluindo o Urso de Prata.

sexta-feira, 27 de março de 2009

GROTESCO

O que pensariam se vos dissesse que andava a “comer” a patroa… E que ela pariu um filho meu… E que o cabrão do marido me deu um tiro nos cornos… E que o filho da mãe do puto ganha a vida a comer e a vomitar? Tudo isto para acabar embalsamado...

Taxidermia filme largamente premiado, escrito e realizado em 2006 pelo húngaro Gyorgy Pálfi, um conto sobre três gerações de homens do qual não conseguimos tirar os olhos até ao final... e que final.

Eis a minha proposta.

Mais do mesmo

Depois de "perder a virgindade" face ao cinema tradicional com Greenaway seguiram-se do mesmo realizador:

- O contrato (1982)
- As cólicas de um arquitecto (1987)



- Maridos à água (1988)
- O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante dela (1989)
- Os livros de Próspero (1991)
- O bebé de Macôn (1993)

Os filmes deste realizador britânico são pinturas autênticas, manifestações de luz natural, naturezas mortas e cores carregadas. Temas originais compõem histórias criativas cheias de imaginação e sensibilidade. Como descrevê-los? Não é fácil. Cada um tem a sua particularidade.

Para além de tudo isto Greenaway convida músicos como Michael Nyman e Wim Mertens para comporem puras obras-primas. Desta forma podemos desfrutar visual e musicalmente de filmes aos quais eu chamaria GENIAIS.

E como hoje é sexta-feira aqui fica a minha sugestão para o fim-de-semana.

A minha primeira vez

Proponho falar-vos um pouco da minha iniciação nos filmes que ninguem vê. Começou cedo o meu interesse por todo o tipo de filmes, cinema era e é o meu mundo. É onde me refugío da sociedade, onde sou tudo e nada.
Em 1985 (tinha apenas 15 anos) levaram-me ao Quarteto para vêr um "filme de qualidade" (como lhe chamavam na altura), de um realizador que tinha começado na edição de filmes e que já há alguns anos se iniciara nas longas metragens. Seu nome Peter Greenaway. Um nome que nunca mais esqueci e que me abriu as portas para outro tipo de cinema.

Quando me perguntam qual o primeiro filme que vi de Peter Greenaway e o que mais me marcou respondo que o filme foi “Um Z e dois Ós”. Para o descrever dizia então que era a história de dois amigos a serem comidos vivos por caracóis.
É claro que o filme não é só isto, mas continuo a adorar vêr a reacção dos outros quando lhes digo ter visto um filme assim. E que até gosto muito, tanto quanto as reacções das pessoas.
Imaginem a preocupação da minha mãe em ter um filho com 15 anos a devorar filmes sobre a decomposição de corpos. "Criei um monstro!" - deverá ela ter pensado.